Por que o risco de sequência de retornos pesa mais no usufruto

Duas carteiras podem entregar exatamente os mesmos retornos anuais ao longo de dez anos e, ainda assim, terminar o período com patrimônios muito diferentes. A explicação está no risco de sequência de retornos: quando o investidor passa a retirar recursos da carteira para sustentar o padrão de vida, a ordem em que os anos bons e os anos ruins acontecem deixa de ser neutra. Por isso, esse risco ganha peso justamente na fase de usufruto, quando o patrimônio acumulado passa a financiar despesas.

Este artigo explica o mecanismo, mostra em números como a mesma média de retorno produz resultados distintos, trata do caso brasileiro (em que a renda fixa também carrega sua própria sequência) e percorre os mecanismos que a literatura de planejamento patrimonial utiliza para lidar com o problema. Outros materiais sobre construção de portfólio estão reunidos na categoria Estratégia de Carteira do blog da Quad Financial.

Em síntese: o risco de sequência de retornos surge quando há retiradas regulares da carteira. Nesse caso, quedas concentradas nos primeiros anos de usufruto forçam a venda de ativos desvalorizados e reduzem a base que participaria da recuperação. Em uma simulação com os mesmos dez retornos anuais, apenas a inversão da ordem gerou diferença de cerca de R$ 3 milhões no patrimônio final.

O que é o risco de sequência de retornos?

O risco de sequência de retornos é a possibilidade de que a ordem cronológica dos resultados de uma carteira altere o patrimônio final do investidor, mesmo quando a média de retorno permanece a mesma. Esse efeito só aparece quando existe fluxo de caixa entrando ou saindo da carteira. Sem aportes e sem retiradas, a ordem dos retornos é matematicamente irrelevante.

A razão é aritmética. Em uma carteira fechada, o valor final é o produto dos fatores de retorno de cada ano, e a multiplicação é comutativa: perder 20% e depois ganhar 25% leva ao mesmo lugar que ganhar 25% e depois perder 20%. No entanto, quando o investidor retira um valor fixo todo ano, cada retirada incide sobre uma base diferente. Dessa forma, um ano ruim no início reduz o capital que estará investido quando os anos bons chegarem.

O tema ganhou tratamento formal na literatura de taxa de retirada sustentável, cujo marco costuma ser atribuído ao estudo de William Bengen publicado em 1994 no Journal of Financial Planning. Desde então, o conceito passou a ocupar lugar central no planejamento de quem vive, total ou parcialmente, da renda do próprio patrimônio.

Como o risco de sequência de retornos aparece em números?

A forma mais clara de visualizar o efeito é uma simulação com os mesmos retornos em ordens opostas. O exemplo a seguir é puramente aritmético, construído para fins didáticos, e não representa projeção, histórico de carteira ou parâmetro de retirada indicado para qualquer investidor.

Considere um patrimônio hipotético de R$ 10 milhões, com retirada fixa de R$ 500 mil ao final de cada ano, ao longo de dez anos. Os retornos anuais usados são: −20%, −10%, +5%, +15%, +25%, +15%, +10%, +12%, +8% e +10%. A média aritmética é de 6% ao ano. Na Sequência A, os anos negativos acontecem primeiro. Na Sequência B, a mesma lista é aplicada em ordem inversa, portanto as quedas ficam para o fim.

Cenário hipotético Patrimônio ao fim do ano 2 Patrimônio ao fim do ano 5 Patrimônio ao fim do ano 10
Sequência A (quedas no início) R$ 6,25 milhões R$ 7,59 milhões R$ 9,73 milhões
Sequência B (quedas no fim) R$ 10,84 milhões R$ 13,65 milhões R$ 12,76 milhões
Sem retiradas (qualquer ordem) Trajetórias distintas R$ 18,29 milhões nas duas ordens

Simulação aritmética elaborada para este artigo. Retiradas de R$ 500 mil ao final de cada ano. Valores arredondados.

Com os mesmos dez retornos anuais e a mesma retirada de R$ 500 mil por ano, a carteira que enfrentou as quedas no início terminou com R$ 9,73 milhões, enquanto a que enfrentou as quedas no fim terminou com R$ 12,76 milhões. A diferença de cerca de R$ 3 milhões decorre exclusivamente da ordem dos retornos, já que a média foi idêntica.

Além disso, a leitura ano a ano revela algo que o número final esconde. Ao fim do segundo ano, a Sequência A já havia perdido mais de um terço do patrimônio inicial. Como resultado, as altas de 25% e 15% que vieram depois incidiram sobre uma base muito menor e não foram suficientes para recompor o capital, mesmo após oito anos consecutivos sem perdas relevantes.

Na fase de acumulação, o efeito se inverte

O mesmo raciocínio vale para quem ainda está aportando, porém com sinal oposto. Com aportes anuais constantes de R$ 500 mil sobre os mesmos retornos, a sequência com quedas no início terminou com cerca de R$ 8,97 milhões, enquanto a sequência com quedas no fim terminou com cerca de R$ 5,94 milhões. Isso ocorre porque, no começo da acumulação, o patrimônio exposto à queda ainda é pequeno. Assim sendo, o investidor que aporta tem mais a perder com uma queda às vésperas da transição para o usufruto, que é exatamente quando o patrimônio atinge seu tamanho máximo.

Por que o risco de sequência de retornos pesa mais na fase de usufruto?

Na fase de usufruto, a retirada transforma uma perda de marcação em perda definitiva. Quando a carteira cai e o investidor precisa resgatar recursos para despesas, ele vende uma parcela maior de ativos para obter o mesmo valor em reais. Portanto, as cotas vendidas no vale deixam de existir e não participam da recuperação posterior.

Três fatores tornam esse período particularmente sensível:

  • O patrimônio está no tamanho máximo. Uma queda percentual equivalente representa, em reais, o maior valor absoluto de toda a vida financeira do investidor.
  • O horizonte de recomposição encurta. Na acumulação, novos aportes e anos de trabalho compensam quedas. No usufruto, a renda do trabalho diminui ou deixa de existir, e o patrimônio passa a ser a principal fonte de recursos.
  • A retirada é pouco flexível. Despesas familiares, compromissos sucessórios e padrão de vida não se ajustam na velocidade de um ciclo de mercado.

Os primeiros anos após o início das retiradas formam a janela de maior vulnerabilidade ao risco de sequência de retornos. Uma queda nesse intervalo reduz o capital no momento em que ele é mais necessário e compromete a base sobre a qual todos os retornos futuros serão calculados. Por essa razão, o planejamento da transição costuma receber mais atenção do que qualquer outro momento do ciclo patrimonial.

Esse ponto dialoga diretamente com o conceito de drawdown. Uma queda de 20% exige alta de 25% para retornar ao ponto de partida. Com retiradas em curso, a recuperação necessária é ainda maior, porque o capital continua saindo enquanto a carteira tenta se recompor. Dessa forma, o limite de queda tolerável em uma carteira de usufruto tende a ser mais estreito do que o de uma carteira em acumulação com o mesmo perfil de risco declarado.

Quer aplicar isso ao seu patrimônio? A Quad Financial faz gestão patrimonial com método M4D — análise multidimensional do mercado, 20+ anos de desenvolvimento. Agendar conversa com o time da Quad →

A renda fixa brasileira também tem risco de sequência de retornos?

Sim, embora ele se manifeste de forma diferente. No Brasil, onde parcela relevante do patrimônio costuma estar em renda fixa, a sequência que importa inclui a trajetória dos juros e da inflação. Segundo o histórico de metas da taxa Selic do Banco Central do Brasil, a taxa básica permaneceu em 14,25% ao ano entre julho de 2015 e outubro de 2016 e chegou a 2,00% ao ano entre agosto de 2020 e março de 2021.

Para quem vive da renda do patrimônio, essa oscilação produz pelo menos três efeitos de sequência:

  • Risco de reinvestimento. Títulos que vencem em um ciclo de juros baixos são reaplicados a taxas menores, o que reduz a renda disponível exatamente quando a retirada continua igual.
  • Marcação a mercado. Títulos prefixados e atrelados à inflação oscilam de preço quando os juros sobem. Como resultado, um resgate antecipado em um momento de alta de juros pode realizar perda, ainda que o título pague a taxa contratada se mantido até o vencimento.
  • Inflação acumulada. Em 2015, o IPCA medido pelo IBGE fechou em 10,67%. Um ano de inflação elevada logo no início do usufruto eleva o custo de vida de forma permanente, e todas as retiradas seguintes passam a partir de uma base mais alta.

Em síntese, a percepção de que a renda fixa elimina o risco de sequência de retornos não se sustenta. Ela altera a natureza do risco, que passa a envolver juros reais, prazo dos vencimentos e necessidade de liquidez, além da volatilidade de preços.

Quais mecanismos a literatura usa para lidar com o risco de sequência de retornos?

Nenhum mecanismo elimina esse risco, porque a ordem futura dos retornos é desconhecida. No entanto, a literatura de planejamento patrimonial descreve estruturas que reduzem a dependência de vender ativos em momentos desfavoráveis. A adequação de cada uma depende do perfil, dos objetivos e da situação de cada família, e o que segue tem caráter exclusivamente educacional.

1. Segregação do patrimônio por finalidade

A estrutura conhecida como bucket approach separa o patrimônio em camadas: uma parcela destinada às despesas dos próximos anos, com baixa oscilação e alta liquidez, e outras parcelas com horizonte mais longo. Dessa forma, uma queda na parcela de longo prazo não obriga o investidor a vender ativos desvalorizados para pagar despesas correntes.

2. Escalonamento de vencimentos

Na renda fixa, a distribuição de vencimentos ao longo do tempo (a chamada escada de títulos) faz com que parte do capital fique disponível a cada período sem depender de resgate antecipado. Assim, o investidor reduz a exposição tanto à marcação a mercado quanto ao risco de reinvestir todo o capital em um único ponto do ciclo de juros.

3. Regras de retirada flexíveis

Parte da literatura propõe regras em que o valor retirado se ajusta ao desempenho da carteira, dentro de limites mínimo e máximo definidos previamente. Portanto, em anos de queda, a retirada diminui e preserva cotas. Em anos de alta, ela pode aumentar. O custo dessa abordagem é a variabilidade da renda, o que exige despesas com alguma margem de ajuste.

4. Rebalanceamento com regra escrita

Definir com antecedência em quais condições a carteira é rebalanceada e de qual classe de ativos sairão os recursos das retiradas evita decisões tomadas sob pressão. Como resultado, a retirada tende a sair da classe que se valorizou, preservando aquela que acabou de cair.

5. Planejamento da transição

Como os anos próximos ao início do usufruto concentram a maior vulnerabilidade, a transição entre acumulação e usufruto costuma ser planejada com antecedência. Isso envolve rever a exposição a risco, a liquidez disponível e o fluxo de despesas projetado antes que as retiradas comecem.

Onde a leitura de mercado entra no risco de sequência de retornos?

A estrutura da carteira define quanto uma queda machuca. A leitura do ambiente de mercado ajuda a entender em que tipo de regime o patrimônio está exposto. Na Quad Financial, cuja estratégia de investimentos é conduzida por Tiago Friedrich, essa leitura é feita pelo método M4D (Mercado em 4 Dimensões), desenvolvido ao longo de mais de 20 anos e organizado em quatro dimensões: valoração, fundamentos macro e intermercados, sentimento e ação dos preços.

No contexto do usufruto, a utilidade de uma análise multidimensional está em identificar momentos em que os preços estão esticados em relação aos fundamentos, o sentimento está eufórico ou a tendência dos preços se deteriora. Nesses momentos, a pergunta relevante passa a incluir o que acontece com o plano de retiradas se os próximos dois anos forem negativos. Ainda assim, nenhum método antecipa a ordem exata dos retornos futuros. Por isso, a leitura de mercado funciona como complemento à estrutura da carteira.

Erros comuns ao avaliar o risco de sequência de retornos

  • Planejar pela média. Projeções que aplicam um retorno médio constante a todos os anos ignoram por completo a ordem dos resultados e, consequentemente, subestimam o risco do usufruto.
  • Tratar a transição como um dia. A mudança de acumulação para usufruto costuma ocorrer ao longo de anos, com redução gradual da renda do trabalho. O planejamento precisa acompanhar essa curva.
  • Ignorar a inflação das despesas. Uma retirada fixa em termos nominais perde poder de compra, e uma retirada corrigida pela inflação acelera a saída de capital em anos de IPCA alto.
  • Confundir liquidez com segurança. Um ativo com liquidez diária pode estar sujeito a marcação a mercado. Liquidez para despesas exige também baixa oscilação no horizonte em que o recurso será usado.
  • Decidir a fonte das retiradas durante a crise. Sem regra prévia, a tendência é resgatar do que está mais acessível, que nem sempre é o que deveria ser vendido.

Conclusão

O risco de sequência de retornos mostra que, na fase de usufruto, a média de retorno de uma carteira conta apenas parte da história. Com retiradas em curso, quedas concentradas nos primeiros anos consomem capital que não volta a participar da recuperação, e a mesma média pode produzir patrimônios finais muito diferentes. No caso brasileiro, a sequência de juros e inflação acrescenta uma camada própria ao problema, inclusive para carteiras concentradas em renda fixa.

Portanto, a pergunta central do usufruto vai além de quanto a carteira rende em média. Ela inclui quanto tempo o patrimônio consegue sustentar as despesas se os primeiros anos forem adversos, e de onde sairão os recursos enquanto o mercado se recupera. Responder a essa pergunta antes do início das retiradas é o que separa um plano de usufruto de uma aposta na ordem favorável dos retornos.

Conheça a Quad Financial

Gestão patrimonial e research independentes para investidores que tratam patrimônio com seriedade. Solicitar diagnóstico patrimonial →

Perguntas frequentes

O que é risco de sequência de retornos?

É o risco de que a ordem cronológica dos retornos de uma carteira altere o patrimônio final, mesmo com a mesma média de retorno. Ele aparece quando há aportes ou retiradas. Na fase de usufruto, quedas concentradas nos primeiros anos de retirada forçam a venda de ativos desvalorizados e reduzem a base disponível para a recuperação.

Por que a ordem dos retornos não importa em uma carteira sem retiradas?

Porque, sem fluxo de caixa, o valor final é o produto dos fatores de retorno de cada período, e a multiplicação é comutativa. Perder 20% e depois ganhar 25% leva ao mesmo resultado que a ordem inversa. A ordem só passa a importar quando retiradas ou aportes incidem sobre bases diferentes a cada ano.

Quando o risco de sequência de retornos é maior?

Nos anos próximos à transição entre acumulação e usufruto. Nesse período, o patrimônio está no tamanho máximo, a renda do trabalho diminui e as retiradas começam. Uma queda relevante nessa janela afeta a maior base de capital da vida financeira do investidor e reduz o tempo disponível para recomposição.

A renda fixa elimina o risco de sequência de retornos?

Não. Na renda fixa, o risco muda de forma: envolve reinvestimento a taxas menores quando os juros caem, marcação a mercado de títulos prefixados e atrelados à inflação quando os juros sobem, e anos de inflação elevada que aumentam permanentemente o custo de vida e a necessidade de retirada.

Como reduzir a exposição ao risco de sequência de retornos?

A literatura de planejamento descreve mecanismos como segregação do patrimônio por finalidade, escalonamento de vencimentos, regras de retirada flexíveis e rebalanceamento com regra escrita. Nenhum deles elimina o risco. A adequação de cada estrutura depende do perfil, dos objetivos e da situação patrimonial de cada investidor.

Sobre o autor: Tiago Friedrich, CEO da Quad Financial. Conduz a estratégia de investimentos da Quad Financial, casa de wealth management e research independente baseada em Porto Alegre, com atendimento remoto em todo o Brasil.

Este conteúdo é informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento, oferta de valor mobiliário ou consultoria financeira individualizada. Rentabilidade passada não representa garantia de resultados futuros. Toda decisão de investimento deve considerar o perfil, objetivos e situação patrimonial do investidor. Quad Financial — Gestora de Recursos credenciada na CVM.

Mais Recentes

Rolar para cima